quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Vida-Magia


Na terra cor de fogo Brotou a menina-girassol

O astro principal alimenta o seu pequeno corpo

Com a energia que, em sorrisos, ela devolve à atmosfera.

A menina-girassol só recolhe as suas pétalas quando fica só, no escuro,

Num sítio só seu, onde nunca ninguém a viu.

Gira mais rápido do que o astro

Para regar a terra com risadas contagiantes.

Por vezes, corre de pétalas dadas com a sua amiga-irmã-tia

As duas desafiam a força do vento

E dobram-se sobre risadas quando vencem a corrida.

Há uma magia nesta menina-flor

Que ela espalha como semente

Em cada circuito percorrido.

Por onde ela passa tudo se transforma em luz, cor e melodia.

Dizem que inventou um novo conceito de socialização:

"Sociadavel", a simbiose perfeita entre presença e partilha.

Hoje é o dia em que tudo se transforma para a saudar

Cada campo apresenta as setes cores do arco-íris,

A água canta antes de voltar ao solo,

As flores alinham-se ao som do clarinete

Que o vento toca. E o Sol pisca o olho ao Sr. Tempo

Que, numa traquinice, transformou 21 em 12

Inverteu os números tal como Ela

Inverte as leis dos humanos para que o riso nunca acabe.

E, numa risada universal, todos os elementos dançam

Até formarem um gigante "Obrigado"

No livro-vida da menina-girassol.

E assim, em mais um ano,

A menina se transforma

por metamorfose secreta em rapariga-magia.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Ninho



Tento escrever-te desde que soube que estavas dentro de mim mas a emoção bloqueia-me e dificulta a coordenação das ideias. Tu existes, já formaste todos os teus membros, todos os órgãos e apuras agora os teus sentidos. Tu existes… eu sinto-te dentro de mim e tudo me parece ainda um sonho, um milagre. O maior milagre de todos: gerar uma Vida.


Há uma citação atribuída a Einstein que diz mais ou menos o seguinte “Há duas formas para viver a vida: Uma é acreditar que não existem milagres. A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.” Vou querer falar-te de Einstein, bem como da teoria da Evolução de Darwin, e explicar-te porque é que para mim tudo é um milagre. Tudo resulta de um conjunto probabilístico maravilhoso que nos permite habitar este planeta.

Quis a probabilidade que eu e o teu pai gerássemos uma nova Vida, a comunhão mais perfeita da nossa genética, a maior concretização do nosso Amor. 


Neste momento tens 28 semanas (e eu 31 de gestação). Soube-te dentro de mim quando tinhas 5 semanas (7 de gestação). Acordei o teu pai em verdadeiro estado de êxtase, com o resultado positivo do teste na mão. Gargalhei enquanto as lágrimas me corriam pela cara, a alegria transbordava pelos meus poros. A magia iluminou a casa. Mas de seguida um medo aterrador invadiu-me, temia que algo não estivesse bem. Dois dias depois já estávamos a ouvir o ritmo acelerado do teu pequeníssimo coração. Foi esse pulsar que marcou o ritmo desta viagem, a melhor de todas as viagens que idealizámos juntos. 

Tenho tanto para te dizer… Quero falar-te dos medos que me invadem todos os dias, das incertezas, serei eu capaz de ser mãe?! Uma mãe como o Amor que sinto por ti exige? Sei que não sou uma mãe perfeita, que nunca o serei mas prometo ser exigente comigo mesma. Não quero ser uma mãe medíocre nem um elemento passivo na tua vida.


Poderia contar-te como começou a tua história, sobre o relacionamento com o teu pai, os muitos erros que cometemos e as muitas coisas das quais me arrependo. Ou então maravilhar-te com o relato das concretizações de sonhos e momentos únicos que nos permitimos. No entanto, prefiro falar-te do pai admirável que tens, do companheiro da minha vida, da pessoa que te mima agora com refeições cuidadas e carícias. Já deves perceber a sua essência generosa e meiga e é muito bonito observar a tua relação com ele. Desde que comecei a sentir os teus movimentos que tu e ele comunicam todos os dias. Basta ele colocar a mão na minha barriga para te começares a mexer e a manifestar. O carinho transmitido da forma mais pura possível!


A tua personalidade começa a formar-se dentro de mim. Os teus movimentos são uma rede cristalina que me vai ensinando a lidar contigo. Já cuidas de mim, já me ensinaste como me devo alimentar, alertaste-me para o excesso de stress e correria dos dias. Foste dura na mensagem, ameaças sair mais cedo se eu não descansar. Tu sabes o quanto eu adoro ter-te dentro de mim! Tu sabes como isso me faz sentir capaz de te proteger do mundo exterior mas acima de tudo quero-te saudável. Por tudo isto não deixo que o tédio se instale e contorne a minha força de vontade. Vou fazer de tudo para manter o nosso cordão umbilical vivo o máximo de tempo possível.


Na minha mente os dois hemisférios foram tomados por duas emoções contraditórias. Num lado está a vontade de te ter sempre cá dentro, agasalhada e nutrida pelo meu corpo. No outro a ansiedade de te segurar nos meus braços, de ver a tua cara, as tuas expressões, segurar as tuas mãos. Esta dualidade traz-me uma sensação de saudade aterradora, a saudade do que ainda não tive e do que vou deixar de ter.

Tudo o que vivi até agora foi absolutamente maravilhoso e os medos quando me invadem servem para mostrar a coragem que guardo dentro de mim.


Gostava também de te mostrar a alegria dos teus primos. Eles esperam ansiosamente por ti e fazem planos sobre o que te querem ensinar e os momentos que vão passar contigo. Dos teus tios que já te enchem de presentes, dos teus avós que se emocionam ao ouvir falar de ti. Dos teus tios emprestados que partilham da nossa felicidade. Todos te esperam ansiosamente.

Infelizmente nunca te vou conseguir mostrar o quanto a tua avó paterna ansiava por ti. Sei que ela iria chorar muito de felicidade quando te pegasse ao colo e imagino-a a dizer “tu não aprendas a fugir como o teu pai!”. De seguida iria contar-te as muitas histórias traquinas de quando ele era criança. Sei que farás várias perguntas sobre ela e nós vamos responder a todas sem exceção.


Serás alvo de vários amores, de todos estes que te enumero e de outras pessoas que se vão cruzar contigo, mas o maior amor de todos é o que eu e o teu pai nutrimos por ti. Sei que vais duvidar muitas vezes desta afirmação quando te sentires incompreendida mas espero conseguir demonstrar-te a sua veracidade. Nunca imaginei sentir algo desta dimensão. Um Amor que dispensa apresentações, um amor que não faz exigências, nem coloca nada em prova. É isso que sinto por ti minha filha, um amor absolutamente incondicional, muito maior do que as descargas de ocitocina que as minhas glândulas possam segregar.


Obrigada por tanto que já me deste! Espero fazer-te bem…

terça-feira, 20 de junho de 2017

Entre as cinzas da sobrevivência



Tenho fascínio pelas teorias de evolução das espécies e do universo. Não me assusta saber que somos resultado de poeiras cósmicas e que vivemos num pequeno planeta rochoso que já sobreviveu à extinção dos outros seres que o dominavam. Acho maravilhoso o aleatório e saber que o homo sapiens só existe porque o altruísmo dos nossos ancestrais assim o permitiu.
Sei, por outro lado, que este cruzamento probabilístico nos mantém muito vulneráveis. O que me leva a compreender a nossa existência como uma improbabilidade mágica. A magia contrasta com a supremacia inventada e a negação das nossas fragilidades.
No fim-de-semana passado, em Figueiró dos Vinhos, assisti à luta pela sobrevivência de outra espécie. Perante a inevitabilidade do incêndio o Eucalyptus Globulus mostrou ser muito mais apto às condições que o meio nos apresentava. Uma espécie sem vontade própria usada como fonte de rendimento e lucro rápido resistia ao fogo cruel que tirava a Vida a dezenas e dezenas de pessoas.

Este é dos textos mais difíceis que tento escrever. Tem tanto de difícil quanto de imperativo. Apesar da desordem das memórias e do bloqueio emocional, escrevo-o porque as gentes daquelas terras merecem ser lembradas. Gente humilde e simpática que nos recebia com sorrisos. Pessoas que se espalhavam nas diversas colinas e vales que as estradas estreitas unem. 

Começámos o fim-de-semana com promessas de perfeição. Na praia fluvial das Fragas de S. Simão encontrámos um cenário idílico, como tantos outros que iriamos visitar. A densidade da água fresca permitiu-nos saborear, serenamente deitados sobre ela, o instante. Olhávamos um pequeno pedaço de céu que as duas grandes fragas apontavam. Por companhia a música das quedas de água. Mas num breve instante uma espessa nuvem de fumo negro apoderou-se do cenário. Do incêndio no concelho vizinho chegavam ventos quentes que contaminavam a mistura gasosa que respirávamos. Sentimos o sobressalto mas estávamos longe de imaginar as proporções da tragédia. 

Um par de horas depois, em Penela ouvimos as primeiras notícias. Conversámos com o dono do restaurante que, num desabafo penoso, confirmou a informação que queríamos falsa. Recordou o inferno que viveu em 2012, nos incêndios que assombraram o concelho de Penela. Falou com revolta das histórias da apropriação de terras por parte das empresas de celulose. Explicou-nos como é fácil convencer pequenos proprietários a plantar eucaliptos, pois o lucro é grande e quase imediato. E que é ainda mais fácil convencê-los a vender as suas pequenas terras à empresa que por ali se vai instalando. Falou-nos do desrespeito à lei, por si só muito insuficiente, e de uma ação movida por um autarca contra um dos anteriores governos por desautorizar a deliberação da Câmara. Deliberação essa que desaprovava novas plantações de eucalipto.

De regresso ao lugar onde íamos pernoitar encontramos autênticos serviços de urgência improvisados. Muitas ambulâncias, muitos profissionais de saúde, helicópteros do INEM. E feridos, muitos feridos. Chegámos ao troço do IC8 cortado, as imensas luzes dos carros da polícia, GNR e ambulâncias pareciam pequenos pirilampos comparados com o clarão de fogo ali tão perto. Invertemos a marcha.
No lugar de Casal Ruivo ficámos de vigília. Em poucas horas o clarão vermelho alastrou-se e fez uma tangente às árvores que nos rodeavam. Mudou de direção porque o vento assim quis.Percebemos a proximidade do incêndio, não por o vermos mas sim porque as luzes dos carros dos bombeiros e as comunicações rádio se fizeram notar. 

Num instante uma imensa nuvem de fumo invadiu o céu e um bafo terrivelmente quente enfrentou-nos. Telefonámos à proprietária do alojamento local que veio de imediato ter connosco. Vimos duas bolas de fogo que se lançavam para uns km de distância. As árvores em chamas livravam-se assim da casca que as afligia. 

Fizemos companhia à senhora que nos acompanhava a nós. O marido pegou no carro para se inteirar da proximidade do perigo. Voltou muito rápido. Começou a regar a área circundante ao terreno. Depois foi ajudar um amigo numa estrada próxima. Todos estes comportamentos são normais e humanos. Ninguém pode dizer o contrário.
- Estas noites são intermináveis, disse a nossa companheira. Finalmente a noite deu lugar a um amanhecer cinzento. Nevava cinza contínua e abundantemente. No chão muitas folhas de eucalipto negras e ainda inteiras.  

Na despedida, um turista inglês perguntou-nos como era possível todos os anos chegarem ao Reino Unido notícias de incêndios em Portugal e ainda não estarmos preparados para esta tragédia. Não pode haver árvores destas tão perto de habitações- dizia- isto é petróleo!
Quis dizer-lhe que a calamidade foi possível por muitos mais fatores. Uma zona com população reduzida e dividida em pequenos isolamentos. Difíceis acessos, poucos meios. Heróis que vão além da exaustão para salvar vidas, aos quais se agradece em discursos demagógicos e se nega um salário decente. Escolas que não nos preparam para reagir nestas situações. Falta de investimento. Meios de comunicação social que não prestaram informação aos que dela necessitavam urgentemente. Partidos políticos que só apresentam propostas quando a sensibilidade eleitoral está ao rubro. Governos velozes em assinar protocolos de milhões com grupos como a Altri e demasiado lentos em mudar o paradigma das forças armadas. Um sistema económico mundial que subjuga vidas a regras de deficits. Um mundo onde o “sucesso” se mede por taxas de produto interno bruto e se desrespeitam os conceitos mais simples para manter a vida no planeta.
Quis dizer-lhe… mas não era o momento. Acompanhava uma família também inglesa que tinha perdido a casa no incêndio. Há momentos que o respeito nos exige silêncio.

Iniciámos a viagem de regresso mas antes parámos em Avelar. Catástrofe e negação pelas ruas. Pessoas socorridas em pavilhões, muitas outras simplesmente à espera. Várias tentavam em vão contactar familiares. Choro, tristeza e dor misturados com uma nuvem cinzenta que tapava o sol.
Sentimo-nos imensamente impotentes! Não sabíamos se deveríamos ficar para ajudar alguém ou se seríamos mais um estorvo. A angústia mantém-se. 

Mas agora, mais do que relatar os acontecimentos, importa apelar à consciência. Este é um momento de coragem. Coragem de assumir os erros do passado e agarrar o presente pelo futuro. Por respeito a todas as vitimas, por respeito à Vida exigimos que os nossos governantes deixem de obedecer às ameaças de grandes grupos económicos. A nossa vida é precária, temos o dever, como espécie, de a proteger e de protegermos todas as outras formas de vida. A Terra é um gigante ecossistema e a nossa interação nele tem consequências enormes. Aproveitemos as vantagens genéticas que temos para que essas consequências sejam positivas.
Solidariedade com as vítimas é pouco!

Vida-Magia

Na terra cor de fogo Brotou a menina-girassol O astro principal alimenta o seu pequeno corpo Com a energia que, em sorrisos, ela ...