quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Racismo Institucionalizado e a Pseudodemocracia


2018/2019: o fascismo adensa-se em todo o mundo. Fascistas declarados são eleitos democraticamente, o populismo enche os discursos partidários da direita à esquerda, o nacionalismo vence referendos populares e crimes de ódio racial são declarados em qualquer esquina de uma “rede social”. O ódio por tudo o que é diferente do nosso reflexo no espelho despe-se e sai à rua sem pudor.
A RTP2 exibiu recentemente uma série documental que nos ajuda a perceber como o fascismo pode proliferar facilmente entre os jovens – NSU, Alemanha Proibida. Esta série, baseada em factos estupidamente reais, explica como foi possível que o um grupo de jovens fascistas se organizasse e operasse por mais de uma década fazendo, pelo menos, dez vítimas mortais. Após a queda do muro, a Alemanha reunificou não só o território mas também o mentecapto fascismo. Mentes de jovens sem futuro alimentadas por músicas de ódio e por dinheiro proveniente dos serviços secretos. O julgamento da noiva neonazi mostrou-nos um sistema vitorioso apenas na aparência. A economia europeia começou a ser escrita pela mesma banca que deixou ao abandono os mais desfavorecidos dentro do próprio país. O estado alemão demorou mais de uma década para travar uma célula neonazi que roubo oito vidas turcas, uma vida grega e uma vida de uma polícia alemã. Como foi possível que isto acontecesse num país onde os crimes hediondos da segunda guerra ainda ressoam dentro do armário? Por uma razão muito simples: porque o racismo está institucionalizado nas autoridades e nos serviços estatais. Por outro lado o governo alemão não podia mostrar ao mundo as falhas de um país onde as fagulhas do fascismo foram envergonhadamente escondidas em terreno combustível. As famílias turcas foram massacradas pela investigação e desprezadas pelas autoridades, ao mesmo tempo que os serviços secretos pagavam a muitos informadores que usavam esse dinheiro para alimentar a rede. A investigação tinha o nome de meia-lua (referência à bandeira turca) mas os crimes foram sustentados pelas garras da águia. 
Porém como as audiências não se alimentam de séries documentais, outras redes televisivas optam por convidar para os seus programas um criminoso neonazi como se de um grande politólogo se tratasse. E facilmente se lança o rastilho para o debate em praça pública que legitima os crimes de ódio racial. A história do povo português não foi separada por um muro mas sim por um oceano. No entanto, não se fala no Portugal pós-ultramar porque “nós” (desprezo qualquer comparação pessoal assente nas fronteiras de um território) nunca fomos um país racista! Portugal olha para os crimes macabros de uma guerra colonial envoltos num nevoeiro difuso, do qual muitos querem ver surgir um novo Salazar. No meu entender, o facto de o mea-culpa nunca ter sido seriamente discutido, leva-nos a que hoje grande parte da população portuguesa naturalize o ódio racial. Naturalizamo-lo no léxico, na criação de bairros que são autênticos guetos e na síndrome de Estocolmo que herdámos do colonialismo. Desculpamos os crimes de ódio racial cometidos pelas autoridades porque estas são, aos olhos de muitos, uma espécie de divindade. Esquecemos que afinal são homens e mulheres cujas falhas educacionais e ideológicas são usadas intencionalmente para alimentar esse ódio. O mesmo sistema que formata o pensamento das autoridades policiais despreza-as não lhes conferindo nem condições laborais mínimas, nem um salário justo. Terreno fértil para o ódio.
A vaga do neofascismo que assombra o mundo toma proporções diferentes de acordo com os interesses económicos globais. Portugal é demasiado pequeno e desinteressante para que haja um investimento considerável nos Venturas que vão surgindo. Ainda é cedo para que os interesses globais queiram instalar um governo fascista por cá. Porém, é sempre muito tarde para as vítimas que este percurso atropela. 
Nem só do passado se alimenta o pensamento, por isso é importante refletir sobre o que está a potenciar esta vaga antidemocrática. O discurso anti-partidário e a falsa ideia de que a corrupção se combate com mais autoritarismo ganharam força muito velozmente. Mas o populismo, tão perigoso para a democracia, foi criado pelo próprio regime partidocrático e é ostensivamente usado, da esquerda à direita, com o simples objetivo de somar votos. Porém, a conquista de votos não serve mais o objetivo de governar segundo uma ideologia. A geração de políticos que agora emerge já não traz na memória a ditadura. Em vez de ideólogos bem fundamentados privilegiamos os bons estrategas partidários. Os ideólogos são uma espécie de românticos que ficaram presos às revoluções burguesas ou à realidade do pós-guerra. Neste entretanto, o mundo financeiro reinventa-se e a engenharia social usa os avanços da neurociência para controlar os nossos pensamentos e emoções. Os românticos continuam a reivindicar os meios de produção, a caridade cristã ou um estado mais forte mas todas estas realidades foram há muito ultrapassadas. Os que nunca foram românticos servem os partidos, servindo-se deles.
Voltando às séries da RTP2, está agora em exibição uma obra que mostra os meandros do partido socialista francês – Barão Negro. Para quem não conhece o funcionamento de um partido político é uma boa forma de refletir sobre o tema. É despendida muito mais energia nas lutas internas do que na defesa dos programas políticos. São feitas alianças obscuras com partidos opositores para ganhar a guerra interna. A luta por um lugar, pelo protagonismo, pelo poder (mesmo que ilusório) é travada com muito mais afinco do que qualquer outra que pretenda atingir o chamado bem comum. As estruturas partidárias são obsoletas e antidemocráticas na sua constituição. Os dirigente partidários, os candidatos a deputados ou os ministros são escolhidos através de esquemas esquizofrénicos por parte de quem quer controlar o partido. Apesar de nos discursos ouvirmos constantes apelos ao fim das desigualdades, é no seio dos partidos que mais se aplica o darwinismo social.
Eu considero o discurso anti partidário muito perigoso, não imagino um regime democrático sem organizações partidárias. Mas são as próprias organizações partidárias que estão a anular a democracia. Os agentes partidários parecem olhar para o companheiro do lado, como os nazis olham para um estrangeiro. O medo instala-se nas mentes mais medíocres e corrompe tudo à sua volta. Mas façamos uma reflexão muito simples: a nossa espécie não está em extinção, por isso não existe a lei do mais apto! Somos todos resultados de poeiras cósmicas, lixo cósmico. Se nos compararmos a uma rocha não é pelo tempo de sobrevivência que nos destacamos mas sim pela capacidade de pensar e, principalmente, pela capacidade de sentir. Enquanto formos capazes de criar e pensar seremos livres. E é aqui que reside a esperança.

domingo, 12 de agosto de 2018

Bico de Cegonha


Aconchego-me em ti
Sinto o teu toque aveludado
Mapeando o meu rosto
E deixo-me embalar pela melodia
Rápida do teu respirar

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Vida-Magia


Na terra cor de fogo Brotou a menina-girassol

O astro principal alimenta o seu pequeno corpo

Com a energia que, em sorrisos, ela devolve à atmosfera.

A menina-girassol só recolhe as suas pétalas quando fica só, no escuro,

Num sítio só seu, onde nunca ninguém a viu.

Gira mais rápido do que o astro

Para regar a terra com risadas contagiantes.

Por vezes, corre de pétalas dadas com a sua amiga-irmã-tia

As duas desafiam a força do vento

E dobram-se sobre risadas quando vencem a corrida.

Há uma magia nesta menina-flor

Que ela espalha como semente

Em cada circuito percorrido.

Por onde ela passa tudo se transforma em luz, cor e melodia.

Dizem que inventou um novo conceito de socialização:

"Sociadavel", a simbiose perfeita entre presença e partilha.

Hoje é o dia em que tudo se transforma para a saudar

Cada campo apresenta as setes cores do arco-íris,

A água canta antes de voltar ao solo,

As flores alinham-se ao som do clarinete

Que o vento toca. E o Sol pisca o olho ao Sr. Tempo

Que, numa traquinice, transformou 21 em 12

Inverteu os números tal como Ela

Inverte as leis dos humanos para que o riso nunca acabe.

E, numa risada universal, todos os elementos dançam

Até formarem um gigante "Obrigado"

No livro-vida da menina-girassol.

E assim, em mais um ano,

A menina se transforma

por metamorfose secreta em rapariga-magia.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Ninho



Tento escrever-te desde que soube que estavas dentro de mim mas a emoção bloqueia-me e dificulta a coordenação das ideias. Tu existes, já formaste todos os teus membros, todos os órgãos e apuras agora os teus sentidos. Tu existes… eu sinto-te dentro de mim e tudo me parece ainda um sonho, um milagre. O maior milagre de todos: gerar uma Vida.


Há uma citação atribuída a Einstein que diz mais ou menos o seguinte “Há duas formas para viver a vida: Uma é acreditar que não existem milagres. A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.” Vou querer falar-te de Einstein, bem como da teoria da Evolução de Darwin, e explicar-te porque é que para mim tudo é um milagre. Tudo resulta de um conjunto probabilístico maravilhoso que nos permite habitar este planeta.

Quis a probabilidade que eu e o teu pai gerássemos uma nova Vida, a comunhão mais perfeita da nossa genética, a maior concretização do nosso Amor. 


Neste momento tens 28 semanas (e eu 31 de gestação). Soube-te dentro de mim quando tinhas 5 semanas (7 de gestação). Acordei o teu pai em verdadeiro estado de êxtase, com o resultado positivo do teste na mão. Gargalhei enquanto as lágrimas me corriam pela cara, a alegria transbordava pelos meus poros. A magia iluminou a casa. Mas de seguida um medo aterrador invadiu-me, temia que algo não estivesse bem. Dois dias depois já estávamos a ouvir o ritmo acelerado do teu pequeníssimo coração. Foi esse pulsar que marcou o ritmo desta viagem, a melhor de todas as viagens que idealizámos juntos. 

Tenho tanto para te dizer… Quero falar-te dos medos que me invadem todos os dias, das incertezas, serei eu capaz de ser mãe?! Uma mãe como o Amor que sinto por ti exige? Sei que não sou uma mãe perfeita, que nunca o serei mas prometo ser exigente comigo mesma. Não quero ser uma mãe medíocre nem um elemento passivo na tua vida.


Poderia contar-te como começou a tua história, sobre o relacionamento com o teu pai, os muitos erros que cometemos e as muitas coisas das quais me arrependo. Ou então maravilhar-te com o relato das concretizações de sonhos e momentos únicos que nos permitimos. No entanto, prefiro falar-te do pai admirável que tens, do companheiro da minha vida, da pessoa que te mima agora com refeições cuidadas e carícias. Já deves perceber a sua essência generosa e meiga e é muito bonito observar a tua relação com ele. Desde que comecei a sentir os teus movimentos que tu e ele comunicam todos os dias. Basta ele colocar a mão na minha barriga para te começares a mexer e a manifestar. O carinho transmitido da forma mais pura possível!


A tua personalidade começa a formar-se dentro de mim. Os teus movimentos são uma rede cristalina que me vai ensinando a lidar contigo. Já cuidas de mim, já me ensinaste como me devo alimentar, alertaste-me para o excesso de stress e correria dos dias. Foste dura na mensagem, ameaças sair mais cedo se eu não descansar. Tu sabes o quanto eu adoro ter-te dentro de mim! Tu sabes como isso me faz sentir capaz de te proteger do mundo exterior mas acima de tudo quero-te saudável. Por tudo isto não deixo que o tédio se instale e contorne a minha força de vontade. Vou fazer de tudo para manter o nosso cordão umbilical vivo o máximo de tempo possível.


Na minha mente os dois hemisférios foram tomados por duas emoções contraditórias. Num lado está a vontade de te ter sempre cá dentro, agasalhada e nutrida pelo meu corpo. No outro a ansiedade de te segurar nos meus braços, de ver a tua cara, as tuas expressões, segurar as tuas mãos. Esta dualidade traz-me uma sensação de saudade aterradora, a saudade do que ainda não tive e do que vou deixar de ter.

Tudo o que vivi até agora foi absolutamente maravilhoso e os medos quando me invadem servem para mostrar a coragem que guardo dentro de mim.


Gostava também de te mostrar a alegria dos teus primos. Eles esperam ansiosamente por ti e fazem planos sobre o que te querem ensinar e os momentos que vão passar contigo. Dos teus tios que já te enchem de presentes, dos teus avós que se emocionam ao ouvir falar de ti. Dos teus tios emprestados que partilham da nossa felicidade. Todos te esperam ansiosamente.

Infelizmente nunca te vou conseguir mostrar o quanto a tua avó paterna ansiava por ti. Sei que ela iria chorar muito de felicidade quando te pegasse ao colo e imagino-a a dizer “tu não aprendas a fugir como o teu pai!”. De seguida iria contar-te as muitas histórias traquinas de quando ele era criança. Sei que farás várias perguntas sobre ela e nós vamos responder a todas sem exceção.


Serás alvo de vários amores, de todos estes que te enumero e de outras pessoas que se vão cruzar contigo, mas o maior amor de todos é o que eu e o teu pai nutrimos por ti. Sei que vais duvidar muitas vezes desta afirmação quando te sentires incompreendida mas espero conseguir demonstrar-te a sua veracidade. Nunca imaginei sentir algo desta dimensão. Um Amor que dispensa apresentações, um amor que não faz exigências, nem coloca nada em prova. É isso que sinto por ti minha filha, um amor absolutamente incondicional, muito maior do que as descargas de ocitocina que as minhas glândulas possam segregar.


Obrigada por tanto que já me deste! Espero fazer-te bem…

Epidemia

Uma fome epidémica  atingiu a humanidade. Nas ruas, circulam pessoas de estômago vazio. Nas casas, vidas desnutridas contorcem-se de dor. No...